Fonte:infinitoaldoluiz.blogspot.com
Estava eu calmamente a almoçar num shopping quando me deparo com a seguinte situação, que mais uma vez me deixou a pensar...
Talvez pela mente sociológica já formatada, talvez pelos conceitos que já me são intrínsecos; na verdade dei por mim a avaliar a ocupação dos espaços pelos agentes sociais, vulgarmente designados por pessoas. Avistei uma televisão e de facto a zona envolvente encontrava-se mais preenchida. Ao que vem a questão... Que tipo de programas e em que canal está sintonizada a televisão?
Resposta mais do que óbvia. Canal desportivo, neste caso sportv. Passava um jogo de basquetebol do campeonato nacional e em volta, a população que acompanhava era 100% masculina. Ora, isto dá-nos o ponto de partida para falar de diversos temas: desigualdade de género, pensamento de massas, coerção social, entre outros. Mas hoje remeto-me ao objecto televisão em si.
Antes de mais, quero afastar do meu espectro de análise aqueles programas cujo objectivo é obter o "share" ou as audiências. Sim, esses são nitidamente instrumentos de estupidificação, mas seria demasiado fácil falar deles e não é esse campo da estupidez que tenciono analisar.
O meu objectivo é falar da televisão (e respectiva programação) no seu todo, no sentido em que deixa as pessoas agarradas ao seu conteúdo e que bebem todas as palavras ditas por profissionais (não) qualificados. Numa primeira fase, vamos pensar a televisão como objecto de informação; de ligação com o mundo como dizem alguns, a caixinha mágica que nos tirou de um colete de forças e nos libertou, dizem outros. Eu tentarei não ser partidário e enumerar as virtualidades desta como ferrramenta de informação.
Imaginemos então a nossa vida quotidiana sem televisão. Tudo bem que os computadores já fazem esse efeito, mas coloquemos essa hipótese de lado. A televisão encontra-se localizada nas diversas zonas da casa, é de facil acesso, um bem de consumo acessível a (quase) toda a comunidade. Permite-nos entrar em contacto com realidades desconhecidas, desenvolvemos o conhecimento, encontramos o que procuramos pois existe programação para todos os gostos e dessa forma a televisão torna-se nossa aliada, quem sabe nossa amiga. Por muito críticos que sejamos, digam lá se não é optimo acordar de manha, tomar o pequeno-almoço enquanto se vêem as primeiras noticias, saber até como está o trânsito nos nossos locais de passagem no trajecto casa-trabalho, porventura ser uma companhia durante as principais refeições diárias ou até durante a descontracção após um dia extenuante de trabalho.
Parece óptimo ter televisão; só vantagens! - dizem os vendedores. É facto que todos ficamos contentes e sabemos dar o mérito que esta merece, mas será que somos nós a controlar o que vimos?
Os canais são muito variados, vejo o que quero. - afirmamos diariamente. Bem, então as liberdades foram aumentadas com este fenomeno. Será que é uma janela para o mundo?
Com isto, quero inferir que a televisão pode-se tornar um instrumento de estupidificação. Primeiro, o conceito atribuído é muito pessoal e envolve conhecimentos à priori, mas este é o meu ponto de vista. Peguemos no caso do shopping que vivenciei, hora de almoço, momento de descontracção e todos se sentem cativados pela caixinha mágica (agora mais parede mágica dada a linearidade das tv's). Todos absorvem a informação oferecida; oferecida pois aparentemente não pede nada em troca, mas vejamos as simbologias associadas e a intencionalidade das acções (passar este ou aquele programa). Estamos num local público com um público heterogéneo, porquê passar desporto? Será que todos gostamos de desporto? E de basquetebol? Depois, por que motivo foi escolhido e o basquetebol? Seria apenas por que a programação assim o delineou ou porque é mais importante que o andebol, por exemplo?
Estou a colocar perguntas para as quais não vou tentar responder concretamente, apenas para se ter uma ideia de que estamos a falar. Para o empregado que ligou a televisão na sportv, pode ter ocorrido uma de três coisas: gosta do canal em si, tem uma percepção dos gostos dos usuários daquele espaço fruto do seu senso comum ou simplesmente não se preocupou e foi o primeiro que apareceu. Ou seja, fruto de uma singularidade que é uma acção individual, toda uma colectividade é afectada. Vamos agora a uma perspectiva mais macro. Quem faz a programação do canal tem o poder de decidir que desportos mostrar e também será fruto de uma de três opções: tendo em vista o lucro da empresa é mostrado o desporto com mais adeptos, preferência pessoal pelo desporto basquetebol em detrimento de outros ou pressões exteriores exercidas pelos clubes de forma a publicitar o clube A ou B.
Qualquer que seja a explicação, a mim resta-me especular, a decisão de um afecta a construção identitária de muitos. Pois o que nós vemos ou ouvimos, tudo o que absorvemos vai moldar o nosso pensamento e as nossas opiniões e a tão proclamada liberdade de pensamento e expressão é não mais do que resultado de um construto social previamente pensado e definido pelas vontades alheias. Cabe-nos a nós, em última instância, aceder ou não à informação "oferecida" pois não quero aqui ser determinista ao ponto de dizer que somos todos formatados e a liberdade aparente é não mais do que uma prisão subtil e bem mais abrangente do que as outras prisões, fisicamente falando.
Por último, mas não menos importante gostaria de fazer uma espécie de comparação entre as pessoas presentes naquele local e essas mesmas pessoas à muitos anos atrás - quando eram bébés. Os bébés, como se diz vulgarmente, são muito bonitos e fofinhos, mas também muito frágeis e necessitam de uma atenção extrema ou até que precisam da nossa ajuda para desempenhar as tarefas e mais tarde de educação para serem bons seres humanos. De facto, a primeira imagem que me veio à cabeça quando deparei-me com o panorama de alguns homens adultos colados ao ecrã da televisão, alienados de tudo o que se passava em seu redor, com o foco de atenção concentrado num único ponto; pensei apenas nos bébés(!) que quando vêem algo com cores garridas e vivas ou quando queremos chamar a sua atenção dizemos: Olhó lindo! E (estalando os dedos) olha para aqui, que bonito que o bébé é!! E é isto que, por intermédio de uma subtileza inabalável a televisão disse àqueles homens, eu incluído pois não deixo de ser homem, de gostar de desporto e muito menos de pertencer a esta sociedade.