quarta-feira, 6 de abril de 2011

África Minha


Eis que os portugueses voltam a África num contexto actual de crise...

África é sinónimo de descoberta, de procura, de um intuito pré-estabelecido. Como é do conhecimento geral, Portugal foi um dos colonizadores de África, mais propriamente da África Negra. Durante longas décadas fomos um só, as colónias eram nossa pertença mas também o nosso armazém ou fiador. 

O sistema capitalista foi-se instalando e as colónias (à semelhança das nossas congéneres europeias) tornaram-se óptimos portos de abrigo, a salvação e o último recurso no que toca a políticas exportadoras bem como era garantida a importação dos produtos nacionais; servindo assim os interesses do Estado e equilibrando a balança em tempos difíceis. Mas, não foi suficiente...

O regime ditatorial instalou-se e à semelhança do ocorrido actualmente na zona arábica e do médio oriente, a revolta gerou-se no seio das populações. Embora não se trate do mesmo tipo de revolta, está inerente em ambos o desejo de independência. Para quê esta guerra travada? É certo que teoricamente existe agora a independência desses países, mas sob uma visão mais atenta e do ponto de vista económico, o caso muda de figura. 

Especificando agora o caso angolano, o que me interessa debater, verificamos por índices como o IDH (índice de desenvolvimento humano) que as diferenças ou desigualdades para ser mais correcto são abissais. Sim, existe liberdade mas está na posse de quem? Relembro o caso ocorrido no mês passado, em Luanda aquando da revolta egipcia; os angolanos convocaram uma manifestação e saíram à rua. A que custo? O braço armado do Estado, o instrumento da repressão funcionou como um relógio suiço. A ameaça iminente desvirtuou as intenções dos manifestantes e os poucos que resistiram, acabaram presos. Foi proibido o direito a manifestarem-se!

Interagindo um pouco com Portugal, a existência de investidores angolanos em bancos portugueses acontece por alguma razão, esta capacidade financeira não cai dos céus obviamente. E será por este meio que nos irão ajudar? Ajuda maior tem sido o contínuo desenvolvimento de Angola, promovido pelas construtoras portuguesas. África tornou-se um paraíso para os trabalhadores portugueses, a nova oportunidade de vingar na vida, de fazer uma carreira`; à semelhança da emigração para França, Luxemburgo, etc, no século XX. Paraíso para jovens recém-formados, escape para trabalhadores com mais de 20 anos de serviço e que se vêm obrigados a emigrar para alimentar as suas famílias!

Tudo isto me leva à imagem que marca uma geração, ao paralelismo entre a guerra colonial e os profissionais da construção civil em que ambos viram-se obrigados a emigrar para África. A imagem do aeroporto que não me sai da cabeça, são diversas as similitudes. Os homens que deixam as suas famílias não por desejo, mas por imposição, as crianças que vêm a sua figura paternal partir, as mulheres que perdem o seu confidente, as lágrimas derramadas... Sim, agora Portugal não está em guerra, mas e em Angola? Cuja corrupção atinge proporções que nos ultrapassa, em que o "Kwanza" é sinónimo de amizade na praça pública, em que os não-hipócritas se sentem impotentes perante a putrefacção vigente. Não será este um clima de medo semelhante ao de guerra? O acordar de manhã sem a certeza do deitar à noite?
Épocas diferentes, problemas semelhantes! A esperança aliada à fé no regresso sereno dos heróis guerreiros, sim guerreiros não são só os que guerream. A felicidade no olhar, o amor instalado no coração, a impaciência que perpetua-se na contagem dos dias. A vontade de regressar torna-os mais fortes e fá-los remar contra a maré e o dia D aproxima-se.

Tempos passados, a história repete-se. Contextos diferentes, imagens iguais. As similitudes e as parecenças fazem deste tempo especial, não para apreciar mas para aprender. O futuro encarregar-se-á de pôr à prova os ensinamentos de hoje.