quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Desigualdades em saúde


O mote para escrever sobre este assunto foi a minha participação num debate online para a disciplina de Sociologia da Saúde cuja temática particularmente me interessou. Assim e com a devida edição irei proceder a uma transcrição que deverá ser lida segundo o efeito para o qual foi escrita.

«Boa noite,

Dada a minha intervenção tardia em termos cronológicos, vejo-me numa posição delicada quanto a tecer contributos que produzam soluções relativamente aos temas apresentados no relatório "Fair societies, healthy life" ou a outros campos de ação derivados deste. Como tal, opto por problematizar mais um pouco e referir-me ao recente relatório do consórcio liderado por Sir Michael Marmot (cuja denominação de "Sir" já demonstra a pertinência dos seus contributos) intitulado "Health inequalities in EU", salvo erro publicado no passado dia 11 de Dezembro e que se encontra disponível em http://ec.europa.eu/health/social_determinants/docs/healthinequalitiesineu_2013_en.pdf.

Li atentamente todas as participações dos colegas e tentarei referir-me a eles sempre que o tema se aproxime com o exposto anteriormente. Assim e excluindo a hipótese de voltar a definir conceitos, começaria por me questionar sobre a forma correta de reduzir desigualdades que está no mote desta discussão. Pegando em ideias da Cátia, verificamos desigualdades, entre outras, nos diversos tipos de capital, como o económico como central no acesso aos serviços; verificamos assimetrias entre litoral e interior que podem ou ser explicadas em termos de distribuição de recursos e/ou infra-estruturas e decorrente das palavras do relatório de Marmot de 2010 a injustiça pela existência de condicionamentos que podem ser evitados. Pergunto-me então se as desigualdades devem ser combatidas a um nível global ou com uma agenda separada na saúde; ou melhor se as desigualdades na saúde devem ser combatidas na saúde ou num plano mais amplo que posteriormente reduza as assimetrias na saúde?

Tal questão segue na linha da reflexão proposta pela Sandrina e não possui resposta imediata nem tão pouco permite uma certeza na resposta pela multidimensionalidade do fenómeno. Cabe-me problematizar em vez de tentar solucionar pelas circunstâncias descritas no início desta intervenção. Apesar da falta de certeza existem certas pistas, que traduzem necessidades, que podemos e devemos seguir. Retiro da intervenção da Catarina a necessidade de um "levelling-up", um nivelamento por cima, algo que ultimamente tem sido colocado de parte. Basta ver as opções políticas tomadas no contexto nacional para verificar que a destruição da(s) classe(s) média(s) para uma crescente desigualdade num sentido lato do termo é tão simplesmente um mecanismo de "levelling-down" e o fosso entre classes que nos aproxima de países em desenvolvimento é um sério problema. Antes ainda de tentar lançar mais pistas, convém ressalvar que o meu foco é a União Europeia, apesar de não único. Como tal, problemas como o referido pelo Bruno da desigualdade pelo não registo de crianças não é algo central apesar de ter noção da dificuldade que é identificar problemas numa população que nem sempre "existe". Remete-nos aqui para questões de dimensão e escala que são importantíssimas no pesar de prós e contras na adoção de políticas em saúde. Posso dar o exemplo que dei em sala de aula das comunidades que vivem nas montanhas do Peru que devido à sua pequena dimensão e dificuldade de mobilidade não têm acesso a meios de saúde, pois o investimento não se justifica.

Pegando na ideia de desigualdade de oportunidades proposto pelo Pedro, gostaria de continuá-lo referindo que não somos todos iguais à nascença. Somo-lo de um ponto de vista físico, mas o seio familiar em que nascemos muito nos diz sobre as oportunidades que poderemos ter no futuro. Não remeto aqui para uma estaticidade do sistema nem uma ausência de mobilidade, mas sabemos que são poderosos os mecanismos de reprodução e manutenção de desigualdades. Logo, dada esta desigualdade "natural" no sentido que não depende do indivíduo per si, existe a necessidade de uma discriminação positiva que a Vânia nos fala que sirva de ajuste como garante da equidade. Assim verifica-se que não é apenas ao nível da saúde que devemos atuar para uma completa e eficaz redução das desigualdades; o nível educacional é muito importante e para a literacia garante o acesso a meios negados aos que não possuem tais capacidades. Falo por exemplo do acesso à informação e dou novamente um caso referido em contexto de aula também no Peru no qual o governo descriminalizou as relações sexuais entre jovens com mais de 14 anos. A perseguição aos jovens rapazes que eram inclusive acusados de violação e suscetíveis a uma pena até 25 anos de prisão terminou pensando-se no bem coletivo. Uma medida aparentemente simples, mas que desencadeia ações bem maiores. Em concreto, as relações sexuais existiam antes desta descriminalização e questão foi pesar as vantagens e desvantagens. Foi identificado o público-alvo e tomaram-se medidas conducentes. Agora, as doenças sexualmente transmissíveis e as gravidezes na adolescência não são um tema tabu e podem ser devidamente acompanhadas e os jovens podem ser informados (aqui a relação entre escola e saúde deve funcionar). A sensibilização para com comportamentos adequados no que toca à saúde deve ser uma constante ao longo da vida e se os mais informados ou com mais recursos conseguem nortear as suas ações, quem menos recursos possui (falo dos vários tipos de recursos) tem o direito de ser ajudado como Marmot nos diz de serem empoderados para poderem tomar as suas próprias decisões.

Em muitos pontos comuns aos colegas eu já toquei e enumerei alguns deles; porém antes de me referir ao mais recente relatório da União Europeia relativamente às desigualdades gostaria de ser crítico quanto à ação "humanitária" de alguns países desenvolvidos. Enquanto Organizações Não-Governamentais (ONG's) sem fins lucrativos e muitas vezes com base em voluntariado, lançam-se para o terreno para ajudar as comunidades em países do terceiro mundo; vemos apoios de Estados internacionais em forma de campanhas de solidariedade que são inócuas em termos de produzir reais melhoramentos e não passam de descargos de consciência pela sua ação nociva seja em contextos de guerra, neocolonização ou exploração laboral. Em causa está o apoio aos direitos humanos, que tanto têm sido debatidos nestes dias pela comemoração dos 65 anos da Declaração Universal do Direitos Humanos, que no reverso da medalha e em função de ideais económicos neoliberais tanto põe em causa as condições de vida das populações. Daqui deriva o fenómeno de crise económica que tanto se fala que na minha opinião não se trata de uma crise, pois como vemos em saúde uma crise é algo temporário, de curta duração; o que não se verifica nesta temática. Daí eu pensar num novo paradigma económico ou numa nova ordem económica mundial. Isto para focar todos os sacrifícios e cortes que o Estado Social tem vindo a sofrer e que colocam em risco o mesmo. A discussão entre sector público e privado é também outro tema interessante de analisar segundo as desigualdades que produz e quais os intuitos das políticas por quem as formula, essa sim é a real questão que só uma sociedade informada, rica em cidadania e participativa poderá incluir-se neste tipo de decisões.

Por último, mas não menos importante focar em dados do relatório "health inequalities in EU". Relativamente às desigualdades na saúde entre estados-membros, verifica-se uma geral diminuição por parte das mulheres comparativamente aos homens e uma importante diferença na sua perceção da doença (p.23-24) e no caso português é interessante verificar essa perceção de que a sua saúde não está boa quando comparada com os anos de vida vividos com essa limitação. A disparidade entre homens e mulheres relativamente ao estado de doença é deveras interessante (p.27). Destaco ainda a forte redução na desigualdade entre os países-membros quanto à mortalidade infantil que reduziu 26% entre 2000 e 2010 dos quais 19% entre 2005 e 2010 (p.48-49). Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), "The social, economic, political, environmental and cultural factors that shape health are known as the social determinants of health" (p.50). Partindo deste quadro concetual, toma-se o ambiente social como explicativo de certos comportamentos de risco que traduzem baixos níveis de saúde. Como exemplo, podemos ver a identificação de quem é fumador relacionando-se com a sua posição social, traduzida ao nível de educação, os rendimentos auferidos, condição perante o trabalho, género, etnia e raça (p.92); verificamos importantes correlações que desmistificam a explicação individual comportamental.

Muitas mais situações poderiam ser mostradas neste relatório rico em informação, mas de forma a ser mais sucinto convém apenas focar algumas das suas conclusões. Uma delas é a importância da manutenção do Estado Social por intermédio da aposta na educação e nos apoios sociais aos desfavorecidos derivado da conjuntura económica atual. A necessidade de uma redução das desigualdades ao nível global que se refletirá ao nível local, algo que responde à minha pergunta efetuada no início desta intervenção. O foco nas políticas de "levelling-up" com a devida introdução, monotorização e avaliação das mesmas. A liderança e a ação ao nível europeu devem ser repensadas de forma a combater de forma eficaz as desigualdades (p.11)

Assim e após apresentar as principais conclusões do estudo que vão de encontro ao exposto ao longo deste debate, cabe-me frisar a necessidade não só de problematizar mas também de agir. A identificação dos problemas é fundamental mas e para não agravar as desigualdades nos países essencialmente num contexto económico delicado torna-se preponderante agir em conformidade e já existem diretrizes ou caminhos a seguir. Este relatório pode ser encarado como um deles. Peço desculpa por me ter alongado um pouco, mas nesta fase do debate é mais difícil ser sucinto dada a pluralidade de temas já falados e que possuem igual pertinência. »