quinta-feira, 16 de agosto de 2012

A história do Amo-te e do Gosto Muito de Ti

   
                         Legenda: Julie Benz, "Rita" in Dexter


 Este será o título do pequeno trabalho em que tenho andado embrenhado. Um conjunto de súbitos acontecimentos fizeram com que escrevesse este texto que, ao contextualizar deu origem a algo maior. Porém e apesar da existência desta história nada como mergulhar nas profundezas da mente e encontrar aquela razão em que sempre pensamos mas nunca a dizemos.

 O que eu quero contar aqui hoje fala-nos de um rapaz, já nos finais da sua adolescência, na fase em que descobre que a vida não é um mar de rosas. Ele sempre foi um rapaz normal como tantos outros só que tinha uma grande curiosidade... Nunca se tinha declarado a ninguém.
 É verdade, todas as namoradas que teve foi algo passageiro, sem significado. Quer dizer, para ele teve mas será que surtiu o mesmo efeito nelas? Bem, é importante frisar que foi amado. Pela família, pelos amigos, pelas pessoas que o admiram. Teve uma vida optima, mas chegou à conclusão que a perfeição não existe e que a rapariga perfeita para si também não existia.
 Ele viajou, correu o mundo... Visitou vários países, várias culturas, mas obstáculos surgiam e o ideal sempre lhe escapou entre os dedos. Ficou com ideias vincadas, assunções que não se sabe de onde provêm e que marcam o seu trajecto. As séries e os filmes foram seus grandes aliados, mas também os maiores inimigos pois mostraram o que ele procurava e o iludiam nesta teia de ficção.
 - Mas a ficção é fundamentada na realidade! - pensava ele. Era o seu conforto. Todas as pessoas importantes que lhe surgiram, chegaram ao patamar do "Gosto Muito de Ti", não batia mais nada para que merecesse algo mais, a dúvida e a desconfiança moravam perto e a sensação do descontrolo das acções tomava-lhe a alma. Ele tinha de ter tudo sob controlo.
 Entretanto conheceu uma pessoa, alguém "diferente". Uma beldade incomparável de uma simplicidade tremenda. Estranhou, nunca conhecera alguém assim... No mundo em que vive as pessoas são arrogantes e egocêntricas, preocupam-se com a imagem como forma de negócio, uma moeda de troca... mas aqui não! A beleza era tanto exterior como interior e a sua inocência cativava-o. Era o viver de um sonho.

 Mas como sabemos, todos os sonhos terminam e sendo essa princesa de terras distantes, mais longe do que a vista pode alcançar, o seu amor parou no tempo. Interesses maiores se revelavam, pormenores decisivos da sua vida. Imergiu numa cápsula, o social deixara de existir. Era uma altura de decisões e o "eu" era o centro das atenções pois o reconhecimento individual permitia desvanecer a necessidade de outras sensações. De tempos a tempos recebia notícias da sua amada que tinha seguido a sua vida, como ele devia ter feito, mas não conseguiu. Até que um dia, por forças maiores que decidiram interferir no seu controlo, voltaram a ver-se. A expectativa era grande e o sangue fervilhava à flor da pele.

 Era chegada a hora. Lá estava ela, esbelta, perfeita. Ainda mais perfeita que da última vez. A sua simplicidade dava-lhe uma calma interior nunca antes sentida, era a visão mais bela da sua vida. Decidiu falar, agarrar a oportunidade. Esta era a sua última chance, tinha de mostrar aquilo que era e o que sentia, soltar o seu monstro interior pois tudo faria sentido.
 Os companheiros de luta nem imaginavam o que este rapaz sentia, sabiam do seu carinho por ela mas pensavam em algo passageiro, terminado há muito. Na verdade, para todos parecia ser essa a fórmula a adoptar. Mas neste reencontro algo mudara, o seu rosto não transparecia a felicidade de outrora, mas sim preocupação. Era essa a leitura que o jovem fazia e lia mais coisas. Apercebera-se que aquela suavidade típica de uma deusa romana a vaguear pela floresta tinha evoluído. Notava-se agora responsabilidade, tenacidade, ideais fixos que regulam a sua vida. As diferenças tinham aumentado mas quase que por magia garantiu uma admiração incomum. Era o florescer, o despontar da idade adulta, a formação de uma personalidade, a criação da pessoa.
 Esta foi a machadada em todas as dúvidas, pela primeira vez ele sentia o que era amar alguém e tinha de o demonstrar sob pena de perder a sua hipótese. Lutou, contra si, contra os pensamentos nocivos e contra a inércia da acção e tentou... tentou a sua sorte por este caminho duvidoso e descobriu o que mais temia. Era tarde de mais! Longos quilómetros separavam estas duas chamas até que uma se apagou, era o pensamento permanente. Veio tudo à sua cabeça, percorreu longos caminhos à procura de uma resposta, não queria voltar para a sociedade, queria-se esconder. Pensou na sua série televisiva de eleição com quem tanto se identificava e percebeu as semelhanças. Tal como Dexter, não conseguia sentir. Nada sentia até hoje. O novo consumiu o velho e tomou o seu espaço e a sua Rita (ver imagem) era a peça que faltava no seu puzzle. Quem conhece a série sabe das suas características, ela é afável, carinhosa, o que vulgarmente chamamos de "amor de pessoa". Acima de tudo é compreensiva, sabe dos problemas de Dexter, da sua anormalidade mas não se importa. Gosta das suas imperfeições, é a mulher perfeita para casar. O jovem pensava o mesmo desta forasteira, não conseguia encontrar um único defeito e que esquisito era para ele, pois no seu "Reino" nada lhe satisfazia, haviam sempre pontas soltas. Mas a forasteira não, os seus defeitos tinham o condão de ser as características mais adoradas pelo jovem. Adorar as imperfeições, não será essa a perfeição?

 Foi então que decidiu agir. Dexter tinha dificuldades e seguiu em frente. Tinha de fazer o mesmo e se a sua sinceridade não bastasse então não havia remédio santo. Encheu-se de coragem e foi falar com ela, abriu o seu coração como nunca tinha feito. Todo um turbilhão de novas sensações percorriam-lhe o corpo e foi um esforço solitário, nem uma palavra ouviu dos lábios dela. Disse-lhe tudo o que lhe ia na cabeça, desde o momento em que se conheceram. Denotou espanto na sua face. Não percebeu. Seria a sua inércia tão grande que nunca fez notar o seu amor? Falou-lhe como nunca tinha falado a ninguém, sabia que seria a despedida pois no dia seguinte ele e os seus companheiros partiam para novas terras e a mágoa que trazia tinha de ser terminada naquela noite. Queria-a como sua namorada, a companheira com que sempre sonhou estar lado a lado, acordar vendo o seu sorriso. Algo que não poderia acontecer neste caso e decidiu despejar tudo o que tinha dentro de si para conseguir avançar para uma nova etapa, uma pedra, um ponto final nesta história. A verdade é que fez o que nunca esperou, disse a palavra mágica. Um nervoso miudinho percorria o seu corpo e os suores frios acumulavam-se até que depois de declarar tudo o que sentia fechou com um inesperado AMO-TE. Ela sentiu-o fortemente, tentou elucidar-se do que se passava pois pensava que seria mais um homem vindo de terras longínquas e que lhe traria mais sofrimento e dor pela sua brevíssima passagem. Não queria ser uma jangada, queria ser um barco. Algo firme a que se pudesse agarrar e por isso gostou de se ter enganado a respeito dele.
 Não havia volta a dar, as suas vidas seguiam caminhos diferentes mas agora tanto ele, aliviado como nunca se sentira, mais leve que uma pena; bem como ela, agora envolta numa sentimentalidade que não esperava sentir naquela noite, sabem que a perfeição existe. Podem ter encerrado este capítulo, mas a sua história perdurará para a eternidade.

2 comentários:

  1. Poderia chamar-se esta, a história de Tomorrowland? Pelo menos, foi a primeira palavra que chegou, talvez proveniente de um impulso supremo. Ainda há pouquíssimo tempo tivemos uma pequena conversa sobre este assunto, lembras-te? No cantinho do Mac Donalds do MarShopping. Falamos aí também da perfeição, daquilo que não te imaginavas a encontrar, como eu encontrei, ou que simplesmente não surgiria na tua vida algo capaz de transceder a alma a patamares de excelência, os patamares de ficção, criados pelas excentricidades da realidade. Vejamos a questão por outro ponto:
    Vamos buscar o Russo, Vygotsky, que nos fala do modelo do andaime a apliquemo-lo aqui. Sem construção de experiência não há desenvolvimento, sendo essas experiências alicerces para que o referido desenvolvimento ocorra (até aqui, nada de novo). Pois bem, As experiências permitiram a esse cavaleiro chegar ao patamar do "Gosto muito de ti", que se renova quase de semestre em semestre, (contastando-se que agora tem vindo a acontecer mais de trimestre em trimestre, ou até menos!), pois pessoas entram e saiem da vida do ser humano como se de um avião de papel se tratasse, frágil e sem direção. E isso dá medo, medo sim, pois até o mais bravo cavaleiro sente medo. Medo pois o patamar do Amo-te, não está bem alicerçado, pois o medo da rejeição ou da má interpretação não nos deixa avançar.. E talvez este cavaleiro tenha dado o passo para que nas suas próximas paragens longìnquas, seja capaz de se estabelecer e marcar um ponto de viragem na sua vida. Não que agora se vá vem perfeição em todos os cantos, não me interpretes dessa maneira, mas agora sim haja mais atenção a pequenos detalhes que, por vontade desta sociedade, escapam-nos por entre os dedos. Bruno Azevedo

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  2. Obrigado desde já pela participação nobre cavaleiro...

    Agora a sério, não nada tem a ver com Tomorrowland ou porventura terá? Isto anda tudo interligado. O intuito foi deixar a livre interpretação da história, quem me conhece melhor pode chegar mais perto da verdade, mas mesmo esses não a conseguem na totalidade nem eu quero que aconteça.

    Um marco já este blog foi, pois permitiu-me uma escrita livre como já há muito pensava fazer mas sempre me faltou o dínamo para tal. Assim e sem querer fazer futurismos, aumentei a eclecticidade de temas e de tipos de escrita chegando assim a públicos mais diversos. Mas escrita como esta foi a excepção que confirma a regra e será continuada por outras paragens que não estas.

    Quanto ao Mac Donalds, lembro-me bem e sim, falamos dessa mesma perfeição agora quiça fantasiada e apresentada de uma outra forma.

    Abraço

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