quinta-feira, 28 de março de 2013

O ressuscitar do filósofo

                             Fonte:https://www.facebook.com/rtp?fref=ts

Tentei... Confesso que tentei mas não resisti. Tal como o senhor presente nesta imagem (EngºJosé Sócrates para os mais desatentos) é meu dever fazer comentário político. E parafraseando as suas palavras é meu direito enquanto cidadão atento e interventivo na vida em sociedade e, repetindo, meu dever enquanto defensor de certas injustiças. Antes de mais, convém explicar o título: não passa do exemplo da chacota pública de que José Sócrates tem sido alvo e o intuito deste é o de alertar para a facilidade com que se cai nesta armadilha. 

O que irei comentar, será por natureza polémico pois é indissociável da visão pessoal com que perspectivamos as nossas vivências actuais. Porém é necessário para calar ou baixar o tom às críticas que se mantêm apenas porque sim, sem fundamento e envolto em sentimentos oprimidos e populismo desmedido.

Posto isto, começaria o comentário pela deplorável prestação de dupla de entrevistadores. Que o Governo exerce pressões sobre a televisão pública, até aí penso que todos poderíamos pensar, agora partir para uma entrevista por si só polémica com o intuito único de denegrir a imagem do anterior 1ºministro em função do actual Governo, isso não! E aqui destaco a atitude de Paulo Ferreira, director de informação da RTP, que de tanta vontade de contrariar o entrevistado, esqueceu-se que este obviamente preparou a entrevista e foi conduzido por José Sócrates quando o que se pedia era exactamente o contrário (veja-se o caso das PPP´s que denotou a espera do entrevistado pela entrada desse tema no debate). 
Ficou demonstrada a falta de ética jornalística que por estes dias muito se tem visto, quer em televisão quer nos jornais onde o sensacionalismo e a notícia fácil superam o valor do rigor jornalístico. Numa linguagem mais básica, o que interessa é fazer notícia, não importa às custas de quem. Faz-me lembrar a lógica dos "paparazzi" e das celebridades, mas tema esse ficará para uma futura discussão.

Analisando agora as palavras de José Sócrates, conotado como ex-1ºministro, despesista desmesurado e corrupto. Como os últimos são os primeiros, começo pelo fim. Casos de alegada corrupção cabe aos tribunais a tomada de decisão e tudo o que sejam opiniões para com o fenómeno em causa, não passam disso mesmo, opiniões. Eu (ainda) acredito na Justiça portuguesa (sem a existência do Direito não existe sociedade), no seu funcionamento e que casos de tribunal devem ser tratados no tribunal, ponto final. Para mim e alguns já o sabem uma Justiça bem oleada no sentido de funcional e célere nos seus processos é meio caminho andado para as políticas funcionarem. Mais uma vez, não me quero alongar sobre este tema.

Quanto ao mito do despesista desmesurado, ouvi atentamente as palavras dos intervenientes da entrevista e chego a várias conclusões. Primeira: José Sócrates contra-argumentou de forma eficaz todas as acusações e ressalvo a inércia dos jornalistas para colocar questões delicadas e pertinentes sobre a questão. Quero-me focar na conjunção coordenativa "e" pois questões delicadas só fazem sentido serem colocadas quando pertinentes e não foi isso que aconteceu, foi o ataque político ou até pessoal que presenciamos. 

Segunda: foi desmistificada a "narrativa" usada pelo actual Governo ( pegando novamente em palavras de José Sócrates), quando números foram colocados em cima da mesa. E atenção relativamente à interpretação dos números que, mais uma vez, é da maior centralidade e foi por aí que as distinções do argumento político ocorreram. Relembro que os números são um auxílio, não o produto em bruto e como tal a economia deveria manter o seu lugar como ciência social em vez da constante tentativa de se tornar algo mais que não é.  Quanto aos números em si, eu não quero estar aqui a levantar questões sobre as quais não tenho provas nem quero acreditar em provas apresentadas sem saber se são ou não legítimas; remeto-me portanto a emitir a minha opinião que como qualquer outra poderá estar certa ou errada. Como diriam os ditos mais tradicionais, onde há fumo há fogo e tantas acusações e consequentes processos abertos relativos a corrupção custa-me a acreditar que tudo não passa de uma cabala contra o indivíduo José Sócrates. Falamos do seu diploma, caso face oculta, freeport, entre outros. Que fique bem claro que não me contradigo com o acima referido relativamente a corrupção, coloco apenas esta, diria hipótese, para o seu rápido enriquecimento. Algo que uma confrontação de dados bancários poderia facilmente resolver, visto o senhor em questão alegadamente possuir apenas uma conta bancária, na Caixa Geral de Depósitos há mais de 20 anos. Acho também que se há questões relativamente às suas finanças e legitimidade dos créditos que lhe são atribuídos, com certeza não será uma entrevista em horário nobre o local mais indicado para as debater. E, perante os dados e tema central na contestação a José Sócrates, este soube gerir os seus pontos fracos e atacar a falta de eloquência dos jornalistas. Logo, o principal problema à partida, foi subtilmente resolvido atacando inclusive o estado das finanças actuais.

Terceira: A necessidade visível e que eu vinha já há algum tempo a sugerir, de deslindar a atribuição das culpas para com a chamada da ajuda externa. E aqui meus amigos, José Sócrates disse exactamente o que eu penso: é atirar areia para os olhos dos portugueses esta rejeição da culpa e atribuição a alguém que fez de tudo para que o país evitasse a ajuda externa e a memória, pelo menos a minha, não é curta e facilmente se podem consultar arquivos da assembleia da república à data  do pedido de ajuda externo. Foi de facto a rejeição do PEC4 e não estou a julgar se seria bom ou não, que obrigou o pedido de ajuda e José Sócrates falou de algo muito importante, a dualidade nítida de critérios do nosso Presidente da República que, por entre silêncios, comenta de forma oposta e aqui o enfoque chave é a intensidade desses comentários que destoa visivelmente quando comparada. Atenção também à necessidade de contextualização! Se como referido na entrevista, em 2009 a Europa levou por tabela da queda do Lehnman Brothers em 2008 que desregulou (se é que existe regulação) os mercados financeiros e até especulativos, também é verdade que actualmente vive-se uma crise na moeda única e o contexto não é mais favorável. Poderia continuar por largos parágrafos a criticar a actuação do Governo ao nível da ideologia (não existe um rumo concreto), do exemplo (ou falta dele) e, do mais importante para mim, do incumprimento das recomendações e imposições da Troika (dou apenas o exemplo dos cortes em que o memorando nos diz que deveriam ser efectuados 3/4 na despesa e 1/4 no aumento da receitas e o Governo fez exactamente o oposto, 3/4 na receita e 1/4 na despesa; com o intuito de um encaixe financeiro mais rápido e que nos levou ao problema actual). Este argumento toma centralidade pela constante justificação do "seguimento das ordens da Troika" que o Governo adopta sempre que procede a mais austeridade.

Em suma, a entrevista de hoje foi muito pertinente e longe de mim ser um defensor acérrimo de José Sócrates pois argumentos como a diminuição dos gastos com as PPP's não significam que estas foram necessárias ou bem feitas, não significa que se crie gastos estatais para proveito privado como já se comprovou e no fundo não significa que por ser menos mau, seja bom. Agora os méritos dos seus esforços devem ser atribuídos e só uma tacanhez tamanha da coligação de Direita fez com que a aposta em programas de requalificação escolar, a importante aposta nas energias renováveis para nos tornarmos menos dependentes do petróleo e que traduz uma alta factura a pagar anualmente e a aposta tecnológica no Magalhães que anos após o seu lançamento coloca actualmente a JP Sá Couto numa agradável situação de mercado com exportações para a Colômbia, salvo erro e para as unidades policiais britânicas e porventura para alemãs e austríacas também; ressalvo que só essa tacanhez política faz com que se avaliem os investimentos feitos não pelo seu real valor e necessidade, mas sim apenas pela cor política de quem os executou ou idealizou.

Espero que deixado algumas questões no ar para reflexão e tenho pena que após um interregno de tantos meses, tenha de ser o tema política a entrar também ele neste blog.

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