Dou por mim a pensar em drogas... Por si esta pequena frase causaria polémica e a razão é óbvia: DROGAS NÃO SÃO ACEITES NA NOSSA SOCIEDADE.
Antes de me questionar acerca desta afirmação, convém dizer que tudo o que aqui é escrito é fruto da inspiração espontânea, de um momento de iluminação próspero que depois de redigido não mais é alterado sob pena de se perder a insanidade temporária típica das ideias e a sua mesma originalidade. Para os mais curiosos, aconselho que atentem nas inúmeras referências à ligação entre criatividade e comportamentos de risco como no exemplo de Truman Capote acerca da sua condição enquanto escritor "Esta profissão é uma longa caminhada entre um drinque e outro" ou as palavras do dramaturgo irlandês Brendan Behan "Somos bebedores com problemas de escrita". Posições extremas, é certo e relativamente à maior efectividade relacionada com o álcool cabe a cada um tomar o seu partido, no entanto é inegável a ligação. Isto tudo para fundamentar a não reescrita dos textos produzidos à semelhança do artista que cria a sua obra num dado momento e que não volta atrás.
Mas o tema de hoje são as drogas e partir da frase identificada a maiúsculas podemos tirar algumas ilações. Primeiro convém saber o que são drogas e segundo o dicionário Priberam da Língua Portuguesa, consultado dia 9 de Abril em: http://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx?pal=droga, droga pode ser: um nome genérico de todos os ingredientes que têm aplicações em indústrias ou farmácias; um estupefaciente que é uma substância que pode modificar o estado de consciência; especiaria aromática; entre outras que não são importantes para aqui. Por aqui já distinguimos duas dicotomias que se criam em volta das drogas...
Primeira: drogas leves/drogas duras e segunda: drogas legais/drogas ilegais. Ambas estão relacionadas e será em volta delas que me irei debruçar.A distinção entre drogas leves e duras ou pesadas basicamente tem a ver com o nível de dependência ou adição com que o indivíduo fica e as consequências para a saúde. Aqui entramos no campo do que é actualmente aceite pela ciência e suas recomendações e o que na realidade são os efeitos positivos e negativos da droga em si. A questão da legalidade da droga varia obviamente consoante o seu tipo e os seus efeitos mas também dependendo da sociedade que pretendemos objectivar. Acima de tudo, a questão da legalidade é política e cultural acima de científica; não existe outra justificação para a droga x ou y ser legal num país e ilegal noutro. Duvido muito que algum Estado queira propositadamente prejudicar a sua população.
Foram lançadas algumas ideias acima que nos permitem começar a conjecturar o quadro do tema de hoje. Vamos então lançar mais algumas relativas à natureza das drogas. Podem elas ser naturais ou sintéticas e aqui tenho de fazer um parêntesis e falar da questão que atravessa a sociedade actualmente, a questão das smartshops. É sabido que estas são maioritariamente sintetizadas e que são químicos que as fazem, químicos com ou sem formação não interessa, no sentido em que usam compostos químicos e como tal colocam sucessivos entraves à sua proibição. A questão central na cabeça de quem consome e não consome drogas (de forma responsável, algo que irei tratar adiante) é que sendo conhecidos os efeitos destas drogas e a sua composição, como era possível a sua legalidade? Muito simples! Fiscalização é a palavra chave mas não a culpemos ainda. Muitos destes compostos sintéticos eram e são usados em animais, não para consumo humano e foi esta passagem que contornou o sistema de fiscalização. Felizmente em Março passado, foi anunciada a proibição de 160 destas substâncias e para mim mais importante o encerramento destes locais que ainda iremos aferir a sua concretização. Porém, o problema reside mesmo na química pois uma pequena mudança nos compostos criam novas substâncias psicoactivas com efeitos semelhantes às proibidas e que encontram-se à margem da lei e com legitimidade para serem vendidas. A solução, em parte, passa pelo fecho destes locais e essencialmente pela mudança de mentalidade de quem as consome. Sociologicamente falando e como eu defendo, a estrutura deve estar presente no campo de acção individual mas apenas para defender os interesses de quem não o pode ou não tem idade para o fazer (alusão aos consumidores destas drogas sintéticas que são muitas vezes menores).
Feito o parêntesis, voltemos ao local onde iniciamos. Proibição ou não proibição das drogas... Uns defendem que para o bem do ser humano, as drogas devem ser banidas pelos malefícios que criam; outros defendem a liberdade de escolha e relembram os fins medicinais de algumas destas tão criticadas drogas. E será por aí que inicio. Depois de uma breve pesquisa verifiquei alguns casos de usos de drogas inclusive pesadas para fins medicinais em finais do século XIX. A partir da Hype Science visível em http://hypescience.com/ verificamos usos de heroína, cocaína e morfina como remédios miraculosos e que foram alvo de grande propaganda como o demosntram os exemplos: Heroína da Bayer - na viragem para o século XX era visto como um substituto não viciante da morfina e dado às crianças para combater a tosse: Vinho de coca da Metcalf, vinho Mariani e Maltine, como muitos dos vinhos da altura, continham cocaína e no 2ºcaso o papa Leão XIII era seu consumidor assíduo e consagrou o seu produtor; o orgulho da Boehringer & Soehne na liderança do mercado da cocaína, traduzido em publicidade; a propaganda em favor da heroína da Martin H. Smith Company que traria efeitos terapêuticos contra asma, tosse e pneumonia e deveria ser misturada com acuçares para viabilizar a ingestão oral; a ingestão da cocaína para quem usasse a voz como ferramenta de trabalho e para combater as dores de dentes em crianças, ambos com efeitos "animadores"; o ópio inalado para combater a asma ou como a marca de temperos Sticney and Poor sugeriu, umas gotas ou uma colher cheia (caso dos adultos) da mistura de ópio de álcool para acalmar os bébés recém-nascidos.
Como vemos, antigamente as drogas faziam parte do dia-a-dia e hoje foram substituídas por... medicamentos. Ora bem, não será algo promíscua esta substituição? A questão central para mim, para além dos efeitos no corpo humano prende-se com a adição e as motivações que levam o indivíduo a optar por consumir drogas. Claro que tenho uma opinião formada, em constante transformação diga-se e que irei transmitir mas acima de tudo o essencial é pensar nestas palavras sem qualquer tipo de condicionalismos exteriores, sem pensar "Não, isto é ilegal e faz mal" ou "Quero ser rebelde e faço o que eu quero". A abstracção da informação concedida pela sociedade é fundamental e isto faz-nos inverter lógicas dominantes e lidar com credos pessoais.
Irei limitar o meu pensamento à realidade portuguesa e agora sim à minha visão do problema. Começo por problematizar todas as "drogas" que são legais. Temos o álcool, tabaco, medicamentos, etc; bastam estes três exemplos presentes no dia-a-dia e dos quais dificilmente alguém escapa. Se evitam um, acabam por consumir outro. Dentro dos medicamentos faço uma ressalva para as medicinas alternativas, não falo dessas neste caso senão teria de introduzir algumas drogas leves que estão presentes nos seus tratamentos mais propriamente para evitar a dor. Além destes três itens, poderia considerar em certa medida como droga tudo o que cria adição e aí entram alimentos, seja o caso do chocolate, doces ou mesmo enchidos e azeitonas. Casos comprovados de que, quando ingeridos em excesso prejudicam gravemente a sua saúde de quem os consome, ou melhor potenciam os factores de risco de certas doenças. Mas para não me acusarem de comparações desmedidas, retiro estes últimos exemplos de adição do quadro que estamos a formar.
E se em vez de tomarmos um medicamento para as dores de cabeça, optamos por consumir a substância que alivia de forma mais eficaz as enxaquecas que vulgarmente se designa por LSD e faz parte das drogas proibidas, sendo considerada até droga pesada pelos seus efeitos secundários que, para o indivíduo a decide tomar poderão ser menores do que as enormes dores de cabeça. A heroína funciona como analgésico e está presente em dezenas de medicamentos derivados do ópio e presentes nos hospitais. O ecstasy combate a ansiedade e o stress pós-traumático, mas é conhecido pelo seu uso nas festas "rave". A própria cocaína tem seus derivados usados como analgésicos. Mais uma vez a questão passa não pela sua legalidade mas sim pela utilidade e tipo de uso que se dá. O próprio controlo da adição é na minha opinião mais importante do que a droga consumida em si e defendo que para estas drogas consideradas pesadas exista uma maior abertura em relação aos seus benefícios para usos terapêuticos.
Mas à semelhança de uma parte significativa da população, que por acaso até normalmente possui um nível de instrução acima da média sou a favor da legalização das drogas leves e por drogas leves falo de produtos de origem natural, essencialmente folhas de plantas, da família dos canabinóides. Falamos da marijuana e do haxixe ou de uma forma geral dos cannabis ou erva. Em Portugal é descriminalizado o seu consumo que por si só é uma contradição pois se fosse realmente "mau como pintam" seria necessário a responsabilização de quem a consome e não apenas passível de receber uma coima. Porém, o seu tráfego sim, é criminalizado pois a substância permance ilegal. No caso do que designamos por ganza temos de atender que esta nunca é "pura" ou seja descendente exclusivamente de cannabis e pode assim conter outras substâncias bem prejudiciais. E toda esta descrição porquê?
Para mostrar as diferentes facetas do que a droga representa, mas tudo isto é teoria pois na prática a questão que se coloca é a seguinte: devo resistir à tentação? E o enfoque na palavra tentação, pois só o é devido à ilegalidade das drogas leves (são as que defendo a legalização). Qual era a tentação dos jovens que tomavam as substâncias das smartshops? A ilegalidade não era com certeza e essa é o principal foco, podemos falar na pressão societal do que é certo e errado e neste caso essa ingestão/inalação seria errada? Com certeza o nível de tentação será mais reduzido, pese os prós e contras dos malefícios físicos e psicológicos futuros relativamente aos momentâneos fruto dessas substâncias.
Vamos verificar a aplicabilidade da resistência à tentação. Uma pessoa sai à noite, em qualquer aglomerado de pessoas em estado recreativo ou seja com disposição para se divertirem a possibilidade de encontrar ou drogas leves ou a minha definição de "drogas legais" - álcool e tabaco é de aproximadamente 100%. É verdade, bem mais fácil encontrar um "vegan" do que um "straight-edge" e quando parece que encontramos um a desculpa do carro para fugir ao álcool ou de problemas respiratórios para fugir ao fumo é comum. Portanto, estes comportamentos que tendem a ser desviantes, foram ao mesmo tempo incorporados na sociedade e deve ser consciente deles que a sociedade deve agir em conformidade. Criam-se leis para evitar o fumo do tabaco em locais públicos, ele continua a existir e se é de fumo que se trata porquê legalizar um fumo e tornar outro ilegal? Estarão os interesses económicos à frente dos interesses que realmente importam? Será o poderio e influência das tabaqueiras que controlam o sistema político como se de uma marioneta se tratasse?
Questiono-me pois entre fumar algo natural, com (alguns) reconhecidos "poderes" medicinais e algo que possui componentes do petróleo, alcatrão e materiais pesados, qual seria a escolha lógica? No fundo, qual seria a menos prejudicial? A lógica do uso recreativo não funciona aqui pois o tabaco é usado com esse fim e então porque não trocar o cigarro pelo charro? Se for tabaco de enrolar as parecenças aumentam e até fica a dúvida no ar muitas vezes. Não consigo perceber esta questão e quanto mais tento, mais volto à questão da liberdade individual posta em causa pela hipocrisia de um suposto interesse colectivo, societal que não passa de um jogo de interesses entre entidades estatais e empresariais que servem-se da ciência para justificar factos questionáveis e nos quais os usos destoam da sua real essência e é também a ciência a sair prejudicada por esta entidade elitista decisória das liberdades em prol do seu lucro e que levada à forma extrema coloca em causa a real assunção da palavra democracia. Nesta, a maioria é ouvida e duvido que a maioria tome a decisão actual como correcta, apesar da forte influência dos "mass media" controlados também eles por interesses (ver http://introsplana.blogspot.pt/2011_11_01_archive.html) e do sensacionalismo causado por imagens ou histórias, muitas vezes ligadas sem critério ou justificação a este tipo de drogas.
Se é certo que fumo é fumo e prejudicam os nossos pulmões, também é certo que ninguém sofreu uma overdose de marijuana por exemplo, pelo que os efeitos nefastos devem ser bem explicados aquando da tomada de decisão do comum cidadão. Com isto não quero incentivar ninguém a fumar ou a adoptar este tipo de comportamentos, quero sim não os condenar e retirar o rótulo de drogados a quem os tem e mostrar que os argumentos que baseiam a sua proibição são pouco fiáveis e abaláveis. Quero dar liberdade de escolha e tomar esta atitude liberal que não convêm confundir com o "liberal" típico de partidos à direita na esfera política, pois neste contexto a sua atitude é designada por conservadorismo.
Pensem bem nas vossas acções e "LEGALIZE IT"!

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