sexta-feira, 17 de maio de 2013

A Noite



Tim - Por quem não esqueci

Procuro à noite, um sinal de ti
Espero à noite, por quem não esqueci
Eu peço à noite, um sinal de ti
Por quem eu não esqueci



Estamos em Maio e isso significa duas coisas para a população estudantil portuguesa. O culminar de mais um ano de costumes académicos e/ou praxísticos. Como tal é tempo de festejar na habitual Queima das Fitas! O segundo significado é o alerta para o término das aulas, já só falta um mês!! Nesta altura tudo se complica, festejos e trabalhos sobrepõem-se e o actor multiplica-se... Certo, errado? Trabalho ou festejo? Quem quero ser? Ou quem serei aos olhos dos outros?

Questões... Muitas questões... E o tempo aperta para lhes dar resposta.

Aproveito o momento para fazer a minha homenagem a uma banda, embora apenas foque o vocalista nesta melodia, que ano após ano integra a tradição académica, pelo menos cá no Porto e satisfaz os estudantes com o seu concerto anual. Um exemplo de longevidade e adaptação aos novos tempos, aos novos desafios da vida actual. Neste caso concreto esta cover dos Sétima Legião que foi extramamente bem conseguida e se tornou um dos marcos vocais de Tim. Relativamente ao original já passam 20 anos, a intemporalidade  das melodias é algo que me fascina, um redescobrir de signos, referências; mistura de atrevimento e astúcia das consequentes novas gerações.

O que também me fascina é a noite. Por definição noite é um período de tempo, entre o crespúsculo e o amanhecer, a oposição do dia e uma outra face. Desde sempre a escuridão cria sensações de insegurança nas pessoas, a falta de plena visão e o não uso da plenitude das nossas características de localização ou movimentação podem também entrar neste compartimento. Ligação ao racismo? Porque não? Basta uma  associação... Se o que é escuro causa insegurança, uma pessoa de pele escura também o causará. Simples raciocínio, redondamente erróneo. Não são as noites perigosas nem  as pessoas de pele escura que cometem crimes; ambas são o que são. O que fazemos delas é que retornará com consequências.

Mas a noite não é apenas isso. A noite também tem luz(es). Tem a Lua, imponente sempre que lotada, as estrelas e seus semelhantes em termos de posicionamento e a iluminação das infraestruturas humanas. Mas deixemo-nos do concreto quando é o abstracto que nos faz sonhar, que nos faz viajar esvoaçando por entre ramos e redemoinhos momentâneos. Imaginemos um lugar amplo, plena visão em redor e um céu infinito numa queda ininterrupta.

Inspira... Expira... Novamente. Inspira... Expira...

Que sensação é esta? Imaginamos a noite mais fresca que o dia, onde as diferenças se esbatem e os olhos deixam de ver ou de o ser. Sinto um cheiro, a maresia, um eucalipto, a Natureza! Também ouço, ahh pois ouço... Os pássaros mudam de poiso, corujas posicionam-se, morcegos podem finalmente VER. Pois, Natureza não somos apenas nós e se nós não vemos arranjamos quem veja. A gruta é a maior admiradora da noite, perpetua o seu efeito continuamente. O vento bate em mim, perco-me nos seus sussurros. A sua dança hercúlea em meu torno faz-me levitar e então a quietude... O silêncio de um mundo em repouso onde pensadores concebem as suas fórmulas, onde criadores encontram a sua musa, onde os artistas fazem do mundo o seu Mundo e o espedaçam pela sua vontade.

Quem trabalha de noite percebe as diferenças, as velocidades alteram-se, o ritmo abranda, cavalgamentos citadinos irrompem na tranquilidade. Afinal a noite é mais humana, os seres que a frequentam cometem menos atrocidades, não há atropelos nem possibilidade de caos! O dia é mais violento, desde'manhã somos violentamente arrancados do descanso. Será a normalidade a nossa norma, ao que aspiramos como condição última do desenvolvimento humano? Se o mundo está a desenvolver, bem prefiro regredir.

Estou encurralado. Sou perecível e a temperatura aumenta. Fico a sós com o meu silêncio e ele grita por auxílio. Também ele fora extinguido.

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